Titular

Sagrado Coração de Jesus

Quando se ama até o fim

No alto da cruz Jesus se sentara como se estivesse num trono nupcial. Ali ele era o Esposo. Ele havia dito, todos nos lembramos, que enquanto ele estivesse no mundo os seus discípulos não jejuariam, nem experimentariam tristeza. Haveria de chegar a hora, a hora das horas, a hora das trevas em que o Esposo seria arrancado do meio dos seus. Suspenso entre o céu a terra, vistas turvas, dormências insuportáveis. Ninguém lhe tira a vida. Entrega-a até o fim. Os corações sinceros e mesmo alguns endurecidos são seduzidos. Experimentam espanto e maravilhamento. Esposo desfigurado, vestido de nudez, com o manto do despojamento. Depois de inclinar a cabeça e dar um grande grito, de entregar o seu espírito, é ferido no peito pela lança do soldado e uma fonte de água e sangue brota de seu lado. Uma janela para o Coração. Um fonte que jorra vida. Isto é o meu Corpo que é dado por vós. Este é meu sangue por vós derramado.

Jacques Leclerc, escritor francês, escreve de maneira tocante sobre o momento da cruz e do último suspiro: “Ele sabia que era preciso percorrer o caminho até o fim, até o fim da condição humana para saber que Deus estava ali, desde a primeira hora. Só Deus podia ser tão totalmente homem. Esse momento não era simplesmente de resignação, ou de heroísmo. Os resignados são derrotados, sem futuro, sem esperança. Jesus não é um resignado, ele é livre. Minha vida ninguém me tira, sou eu que a dou. Com a fronte erguida para o céu escuro do Gólgota, apoiado sobre a cruz que o torturava, ele sabe que cada de seus passos era um passo de eternidade e que carregava consigo o devir do mundo”.

Coração é uma palavra primordial nas línguas neolatinas. Coloca-nos diante do básico, do fundamental, daquilo que não pode ser compreendido por uma conceitualização racional. O coração aponta para a pessoa tomada em seu conjunto, sua verdade e sua autenticidade. A Escritura quando emprega o termo aponta para o centro e o intimo da pessoa. Sede do desejo, da vontade, dos sentimentos. Um espaço que não ocupa espaço. É o âmbito decisivo do relacionamento com Deus. O israelita piedoso buscava a Deus de todo o coração de toda a lama. Jeremias afirma que Deus perscruta o coração do homem. O coração humano busca o Coração de Deus.

Aquela janela feita no peito de Jesus apontava para sua realidade mais profunda mais interior, para além do bombeamento de sangue, das sístoles e diástoles. Uma janela para o Mistério. Esvaziamento do peito de uma trajetória que nada mais fora senão dom. Contemplar essa brecha incita-nos à gratidão e a lutar para que todos possam compreender a altura, a largura, o comprimento e a profundidade de um tal amor. A água e o sangue, o batismo e a eucaristia. Essa água lava o corpo e alma do homem velho. Ela nos torna renascidos. Esse sangue que nos alimenta na mesa da eucaristia e que permite que nossas pernas sejam robustas e nosso ser mais íntimo seja forte. Não se pode viver sem a eucaristia.

Uma lança, um toque ainda no corpo morto de Deus em Jesus. Essa ferida que continua não cicatrizada nos irmãos de Jesus. Aquele que nos ama a partir de seu íntimo mais íntimo pede e “exige” que o busquemos a partir de nossa verdade mais íntima e não apenas com uma cascata de palavras. Uma postura de ação de graças que se vive e experiencia na vida sacramental. Um desejo de fazer de nossa vida uma “propaganda” de Jesus. Com nossas palavras, com nosso testemunho dizer que nossa vida está escondida em sua vida e que esse amor precisa ser amado. Ter todo o tempo da vida para curar as feridas do peito dos irmãos de Jesus: violências físicas, tratamento desrespeitoso, solidões no fundo de um quarto, no leito de um hospital, no triste espaço de uma cela de prisão. Pela fé vemos ainda hoje o peito dilacerado do Amado.

Delicadas e inspiradas palavras de São Boaventura: “Teu lado foi rasgado para que nos fosse aberta uma entrada. Teu coração foi ferido para que pudéssemos descansar debaixo daquela videira, livres das agitações exteriores. Também foi ferido para que pela chaga visível enxergássemos a chaga do amor. Por quem ama ardentemente está ferido de amor”.

Era preciso percorrer o caminho até o fim da condição humana para saber que Deus estava ali, e que estivera desde a primeira hora.

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