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O lugar onde Deus habita

Frei Almir Guimarães

Nós, discípulos do Senhor Jesus, temos o costume de nos lembrar de sua bondade sem limites às primeiras sextas-feiras de cada mês. Esse dia é consagrado ao Coração de Jesus. Pensamos, de modo particular naquele momento em que o soldado, com uma lança, tocou o lado do Crucificado. Incontáveis reflexões, através dos tempos, foram sendo feitas a respeito desse fato. São João Crisóstomo assim descreve a cena e faz seu comentário: “Estando Jesus já morto e ainda pregado na cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu lhe o lado com uma lança e imediatamente saiu água e sangue: água como símbolo do batismo; o sangue como símbolo da eucaristia. O soldado, traspassando-lhe o lado, abriu uma brecha na parede do templo, e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias” (Liturgia das Horas II, p.416). O peito de Jesus, todo o seu interior foi esvaziado. Ele amou até a última gota de água e de sangue. Amou de todo o coração.

Coração? Não, em primeiro lugar o músculo de carne, mas a interioridade da pessoa, o nó mais íntimo. “Na tradição judaico-cristã coração se refere à fonte de todas as energias físicas, emocionais, intelectuais, volitivas e morais. Ele é o centro da vontade; planeja e toma boas decisões. Assim sendo, o coração é o órgão central e unificador de nossa vida. Nosso coração determina nossa personalidade e é o lugar onde Deus habita” (Henri Nouwen).

Aquela janela feita no peito de Jesus apontava para sua realidade mais interior, para além do bombeamento de sangue, das sístoles e diástoles. Espaço sem ocupar espaço. Esvaziamento de um peito, de uma história que tudo tinha dado. Contemplar essa brecha é experimentar gratidão e lutar para todos possam compreender a altura, a largura, a profundidade e o comprimento desse amor.

Aquele que nos ama a partir de seu íntimo mais íntimo pede e exige que o busquemos a partir de nosso coração, ou seja, de nossa verdade e não de exterioridades. Coração que apela para coração. Precisamos fazer uma viagem ao fundo de nós mesmos, para podemos compreender o que é amar de todo o coração. É urgente revisitar o interior, ser pessoa consciente. Coração e interioridade são conceitos que se equivalem. Não é tarefa tão fácil essa de chegar ao fundo de nós mesmos. Somos povoados de mistérios. Tentamos descobrir alguns. Outras vezes vivemos por viver. Alimentamo-nos de ilusões. Quando vamos mais a fundo damo-nos conta que só existimos quando amamos com as entranhas e com as entranhas dos somos amados. Fundamental conhecer nossos próprios desejos e que disponhamos a fazer nossa história a partir da verdade de nós mesmos. Descobrir o que anda oxidando as dobras da alma.

Queremos nos rebelar contra toda superficialidade, com a multiplicação de tantos interesses exteriores para descobrir nossa identidade original que está no homem que desce à sua profundidade, ao próprio poço, como homens e mulheres que fazem uma temporada no deserto, que se tornam pobres e sabem amar. O coração é porta da interioridade. Ser amado de todo o coração e amar de todo o coração. Numa inteireza de nosso ser. De coração. 

“Olhar o Coração de Cristo é adentrar-se no mistério divino e acercar-se no mais íntimo de sua realidade pessoal: o Amor. Seu interior se abre como acesso encarnado, humanado, ao Mistério. Na Páscoa se converte em coração do mundo e desde então tudo está perpassado de sua presença viva e vivificante. A interioridade de Deus abre-se para a humanidade no Filho e por ele a toda realidade” (Maria José Marinho).

O CORAÇÃO DE DEUS ESTÁ NO CORAÇÃO DE JESUS NOSSO CORAÇÃO ESTÁ LÁ ONDE COMEÇAMOS A DIZER “EU”.

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