Frei Luiz Reinke

Nos 125 anos de presença dos Franciscanos em Petrópolis (desde 1896), entre os diversos frades que marcaram a história está a figura de Frei Luíz, hoje nome da rua que atravessa o Convento do Sagrado e na qual se localiza a Editora Vozes Ltda, a OFS, a casa da Pastoral da Saúde e o centro de pastoral. Nas linhas que se seguem, vamos apresentar algo da biografia deste célebre personagem.

  1. Nascimento e seu contexto histórico

O último quarto do século XIX na Alemanha é marcado pela figura de Otto von Bismark. Não existia ainda a Alemanha unificada, sendo este território composto por uma série de pequenos reinados e principados e coube a Bismark a obra de unificação, criando o estado alemão. Este empreendimento de criação do sentimento nacional foi um processo complexo e Bismark promoveu o chamado Kulturkampf (1872), a luta cultural pela unificação. É neste contexto político de grandes mudanças que veio à vida o nosso personagem.

Ele nasceu em Marienfeld, um vilarejo na região da Vestfália, às margens do riacho Sem, de águas tranquilas, pois a topografia é em grande parte plana naquela região. A economia era composta basicamente pela agricultura.

Neste vilarejo moram famílias tradicionais, entre elas a família Reinke, formada pelo casal Hermann e Maria, cuja primeira filha se chama Gertrude. A menina já era grandinha quando aos 29 de junho de 1872 nasceu o primeiro filho, tendo recebido no batismo o nome de Teodoro Henrique. O nascimento de um varão alegra toda a família, especialmente naquela época, tendo em vista a continuidade do empreendimento agrícola. Seu pai, porém, morreu não muito depois do nascimento do menino. A mãe tomou a frente dos trabalhos e os cuidados do menino ficavam mais ao encargo de Gertrude. Alçada a uma função precocemente, diz-se que ela era muito áspera no trato com o irmão, exigindo disciplina e obediência. A mãe tinha mais sensibilidade e se diz que era dotada de uma certa presciência (previsão do tempo, previsão da morte da filha da amiga de Gertrude, previsão da morte de uma vaca enforcada).

  1. A infância e a escola

Com 8 anos de idade, Teodoro Henrique começa a frequentar a escola (em 1880). Ali usava o método prussiano de ensino: a disciplina militar. Três instrumentos pedagógicos eram bastante conhecidos: berros, murros na mesa e varadas! Uma brincadeira típica das crianças ali era imitar as batalhas entre franceses e prussianos. A igreja era o lugar que mais parecia apropriado ao menino, calmo e meditativo. Conta-se que ele começa a sonhar com Santo Antônio.

  1. A vocação

Em 1886, Teodoro Henrique termina a escola fundamental. Em 1887 encerra-se a Kulturkampf e Bismark reata relações com o papa. A Alemanha católica está em festa!

Terminada a escola fundamental, a mãe e a irmã mandam Teodoro Henrique, com 15 anos de idade, trabalhar no comércio, num restaurante. A dona do restaurante, vendo que o jovem era muito tímido para atender o público, o coloca no caixa. Ali ele trabalhava alheio ao burburinho da casa. Quando o restaurante fechava, à noite, ia para a Igreja ouvir a instrução do padre, pois não tivera instrução religiosa na escola leiga que frequentara.

Ali o jovem Teodoro Henrique começa a sonhar com a possibilidade de ir a uma terra longínqua para servir como missionário. Quando tinha seu pensamento e decisão já amadurecidos, comunicou à mãe. Inicialmente a mãe pede que ele repense, mas como continuou firme na decisão, ela consentiu. Certamente nunca entendeu bem sua decisão, pois esperava que ele, o varão da família, fosse tomar a direção do sítio. Mas mesmo assim, preparou tudo para o jovem partir. Em 1890, quando ainda não completara 18 anos, Teodoro Henrique vai para Harreveld, na Holanda, onde os franciscanos mantinham um seminário.

Por que teria ele procurado entre tantas outras, justamente a Ordem Franciscana? Diz que foi em primeiro lugar a humildade e a caridade de Francisco de Assis que o atraíram. Depois a situação da Ordem Franciscana no Brasil, prestes a se extinguir por falta de frades. Em 1891, o governo geral da Ordem Franciscana em Roma decide que a província franciscana alemã restaure a Ordem no Brasil, que contava com a Província de Santo Antônio (com sede em Salvador) e a Província da Imaculada Conceição (com sede no Rio de Janeiro). Assim, frei Ciríaco Hilscher, encarregado pelo superior de ver os jovens que tinham condições para a missão, vai a Harreveld para escolher 40 jovens para compor a missão brasileira. Teodoro Henrique estava entre os escolhidos. O próprio frei Ciríaco é o coordenador do grupo escolhido para a missão. Estes foram se preparar no convento de Bleyerheide (Holanda). Ali, Teodoro Henrique vai se destacar como aluno exemplar. Em 1894, Teodoro Henrique e seus companheiros partiram para Harreveld, onde receberam o hábito franciscano e o nome de ordem, na entrada ao noviciado.

A 20 de junho de 1894, os missionários partem para o porto de Hamburgo, onde já se encontram outros jovens franciscanos e no dia 21 de junho de 1894, 52 jovens franciscanos e seu mestre embarcam no vapor alemão de nome Argentina. Um dado interessante: os únicos passageiros do navio eram os 52 jovens com seu mestre, e todos os tripulantes eram protestantes, inclusive o capitão Bohrmann. Havia entre a tripulação uma certa prevenção contra padres, mas frei Ciríaco, em pouco tempo, conseguiu a simpatia de todos e organizou o navio como um convento: horários de trabalhos, horários de orações, missas, etc. Era um convento flutuante. Aproveitou também a viagem para curso intensivo sobre a regra franciscana. No dia 1o de julho de 1894 o navio aportou em Recife, onde Frei Luiz pode ver o Brasil pela primeira vez. Mas não desceram ali. No dia 10 de julho chegaram em Salvador da Bahia. O capitão tornara-se tão amigo dos frades que sempre que o navio passava novamente por este porto, não deixava de visitar o convento dos frades: o convento de São Francisco, lugar que acolheu os 52 jovens noviços.

  1. A entrada na ordem e a troca de nome

Ao iniciar seu noviciado o jovem Teodoro Henrique recebeu o nome de Frater Aloysius, que foi traduzido livremente por Frei Luiz, nome pelo qual passou a ser chamado, tendo como patrono São Luiz Gonzaga. Surge assim uma nova pessoa, tendo ficado para trás o nome Teodoro Henrique.

  1. Primeiros tempos de Brasil

A manhã de 10 de julho foi de sol, quando os frades chegaram a Salvador. Para um jovem vindo da Alemanha, esta primeira visão do porto devia ser pitoresca. Descida do navio, asseio da população, limpeza da cidade. Após alguns dias de descanso da viagem, frei Ciríaco retoma o curso da formação iniciada no navio.

No ano de 1896, Frei Luiz foi acometido de febre amarela. A doença foi tão forte, que muitos pensavam que não iria escapar. Tendo escapado desta, molestou-o a beribéri. Esta moléstia deixou sequelas para o resto da vida do jovem Frei Luiz. Sua saúde era combalida e muitos achavam que tinha inclusive tuberculose. Ficava períodos isolado no pomar do convento. Certa feita, estava ele encostado numa mangueira, quando aproximou-se um velhinho que ele nunca tinha visto antes. Este lhe disse que ficaria curado se tomasse de uma vez só o remédio que lhe trouxera. Dizendo isso, o velhinho lhe dá um frasco com cerca de meio copo de um líquido esbranquiçado. Frei Luiz o tomou de uma vez só. E o velhinho foi-se embora. Ninguém o vira entrar, ninguém o viu sair. Fizeram inclusive buscas, mas nada se notou. Fato é que a tosse o deixou e os escarros desapareceram. O próprio Frei Luiz contava o fato mais tarde com grande felicidade. Terminado o noviciado, foi ele transferido para o convento de Olinda, em Pernambuco. Ali estudou filosofia e teologia, tendo também sido ordenado diácono.

  1. Chegada a Petrópolis e início da missão

O jovem, mesmo curado das doenças, ficara fraco de saúde. Os médicos aconselharam que fosse viver em algum lugar de clima mais suave. Surgiu assim a ideia de transferi-lo para um convento da ordem recém criado na cidade de Petrópolis: o Convento do Sagrado Coração de Jesus. No dia 29 de dezembro de 1899 embarcou Frei Luiz em Recife com destino para o Rio de Janeiro e dali para Petrópolis, onde chegou a 02 de janeiro de 1900, junto com frei Nicodemos Grundhoff. A terra longínqua com que sonhara era agora realidade. De natureza mais exuberante ainda que hoje, Petrópolis à época já era bela e encantou Frei Luiz. Parte da população era descendente de alemães.

Chegado ao Convento do Sagrado Coração de Jesus, Frei Luiz prepara-se para receber a ordenação sacerdotal. Isto ocorre no dia 24 de fevereiro de 1900, pelas mãos do bispo dom Francisco do Rego Maia. No dia 04 de março, celebra ele solenemente na Igreja do Sagrado a sua primeira missa. Começa então uma nova etapa de vida. Jovem, antes ainda de 30 anos de idade, a ordem o destaca para atender as necessidades das pessoas: espiritual e material, na cidade ou nos vales, no centro ou perdidos na mata. Onde houvesse alguém com necessidade, para lá se dirigia diligentemente Frei Luiz, levando palavras de esperança e quando podia, ajuda material. Seu meio de transporte era o cavalo. Montado no animal e sob a zombaria às vezes de muitos, percorria ele seu itinerário de atendimento por Correias, Nogueira, Itaipava, Araras, Mato Grosso e todo o vale do Piabanha. Muitas das casas isoladas de pobres viviam de fazer carvão para vender. Em Mato Grosso ergue ele uma capela. Sua ação não era apenas de comunhão e confissão. Mas de distribuir alimentos e medicamentos onde podia.

  1. Mudança de missão

Estando em seus afazeres em Petrópolis, Frei Luiz recebeu com certa tristeza a notícia de que o bispo de Mariana, dom Silvério, o queria como vigário da freguesia mineira de Bicas. Isto ocorreu aos 11 de janeiro de 1902. Frei Luiz bem que preferiria continuar em Petrópolis, mas aceitou a designação. O povo dali certamente via com desconfiança a chegada do padre jovem, do qual se duvidava que iria conseguir dirigir a paróquia. A caridade foi a sua maneira de agir. Sua ação foi destacada, de tal modo que chamou a atenção do novo bispo de Niterói (que reside em Petrópolis), dom João Braga, que o chama para ser seu secretário. Assim, Frei Luiz volta para Petrópolis e o simples frade passa a fazer parte de um círculo elevado de convivência social por conta de sua função, o que trouxe a ele diversos dissabores. O bispo era gaúcho e conta-se que não gostava de doces. Quando os ganhava, Frei Luiz era que tinha que comer.

  1. Obras culturais

A atuação de Frei Luiz em Petrópolis também se deu na área cultural, onde participou da criação do Centro Católico, com um pequeno periódico de instrução e sala de cinema. Também foi ativo na fundação da “Obras das Filhas do Divino Coração”, instituição para acolher e instruir as jovens operárias, com instrução espiritual e formação em corte, costura e bordado.

O Centro Católico tinha um cinema para a instrução e distração sobretudo dos pobres e iletrados. Sucumbiu por falta de bons filmes. A principal ocupação de frei Luiz continuava sendo, porém, a visita e ajuda às pessoas necessitadas, sempre a cavalo. Ganhara de um fazendeiro amigo (Dr. Jerônimo) inclusive bons cavalos, (dos quais os frades todos usavam e abusavam).

  1. O automóvel e os atendimentos

No lombo de um cavalo ou na carroça. Frei Luiz  não dava mais conta de visitar todos os que necessitavam e pediam sua visita. Fazia-se necessário um automóvel. Mas isto era muito caro! Foi então que alguém doou a ele um automóvel novo em folha e depois outro e assim por diante. O campo de atuação de Frei Luiz também aumentava: distribuir o conforto de uma palavra, o pão necessário, o vestuário. Frei Luiz, aos poucos era visto pelo povo não só como médico da alma, mas também do corpo. Para melhor poder atender o povo neste sentido, empenhou-se em aprender o uso de plantas medicinais e passou a fazer uso disto com maestria. Capim limão (cidreira) era uma de suas indicações prediletas para males do estômago, fígado, rins, insônias, nervosismo… Ele mesmo passou a plantar o capim para distribuí-lo a quem não tinha. Chá de folha de goiabeira, casca de pitangueira, xarope de agrião e por aí iam os remédios de Frei Luiz. Nas horas de descanso, Frei Luiz tinha o hábito de fumar um charuto.

  1. Trajetória intelectual

Não obstante a intensa atividade com as visitas e atendimentos, Frei Luiz não descuidou de construir também uma obra intelectual para ajudar na instrução dos fiéis. Escreveu, assim, primeiro uma biografia de Santo Antônio. Depois escreveu “Belezas da Alma Humana!” uma obra filosófica sobre as belezas morais. Não quis, porém que seu escrito fosse publicado e o queimou antes que alcançasse leitores. Restaram apenas alguns pedaços do escrito. Por que o fez? Nunca revelou. Sob o pseudônimo de “Lírio do Vale”, traduziu o célebre romance “Josefina” de Franz Von Seeburg, que mereceu do Conde de Afonso Celso, um prefácio, datado de 20 de fevereiro de 1911.

  1. O acidente

As atividades de Frei Luiz tornavam-se conhecidas não somente na cidade de Petrópolis e redondezas, mas também aos poucos na cidade do Rio de Janeiro e frequentemente ela para lá chamado por pessoas que necessitavam de ajuda. Numa de suas idas ao Rio de Janeiro, de automóvel, sofreu em 1o de junho de 1914 um grave acidente. Ficou muito machucado e perdeu muito sangue. Mas aos poucos se recuperou, ficando porém, como lembrança do fato até o resto da vida, uma cicatriz na testa e uma ligeira deformação no nariz (além dos muitos dentes quebrados). Da cicatriz e do nariz torto não reclamava. Queixava-se dos dentes que perdera, pois além de dificultar a mastigação, a falta de dentes mudou-lhe a dicção, dificultando a pregação, da qual chegou inclusive a se afastar um pouco.

  1. Os atentados

No dia 11 de dezembro de 1931 Frei Luiz sofre um atentado. Um senhor (Antônio Mário Hansen), empunhando um velho revólver, espera o horário que Frei Luiz costumava sair do convento para fazer sua ronda junto aos pobres e o alveja a queima roupa, pelas costas, na portaria do Convento do Sagrado Coração de Jesus. O homem foi agarrado pelas pessoas e desarmado. Frei Luiz, muito calmo, dirige-se ao frade porteiro e pede que chame o superior para dar-lhe a absolvição, pois sente-se gravemente atingido pela bala. A notícia do atentado espalhou-se rapidamente. Frei Luiz dirigiu-se à Igreja para receber a absolvição. Depois disso, amparado pelos confrades, subiu no carro que o levou ao Hospital Santa Tereza. Antes, porém, pediu que se tivesse compaixão com o homem que cometera o atentado. No hospital, o exame mostrou que a bala se partira em dois pedaços, causando uma grande hemorragia. Mesmo estando Frei Luiz já debilitado, os médicos decidem operá-lo para retirar os pedaços de chumbo. Conseguiram extrair o pedaço maior. O menor, não conseguiram remover e Frei Luiz ficou com ele no corpo o resto da vida. Após algumas semanas de sofrimento, voltou para o convento, ainda debilitado pelo ocorrido. O motivo do atentado: tudo indica que o fato está ligado ao combate feroz que fazia Frei Luiz às casas chamadas na época de “Baixo Espiritismo”. Devido à ação de Frei Luiz, muitas destas casas tinham fechado as portas por falta de adeptos e assim angariara Frei Luiz a inimizade destas pessoas. O homem que cometeu o atentado (um desempregado desesperado) teria ido procurar uma destas casas e o dirigente se aproveitou de sua fraqueza para aconselha-lo a cometer o atentado. Uma outra tentativa de atentado contra a vida de Frei Luiz ocorreu da seguinte maneira: homens vieram até o convento num final de dia para buscar Frei Luiz que deveria atender um doente no leito de morte. O frade foi levado por estes homens até um morro e ali foi posto para dentro de um casebre, onde pretensamente estaria o moribundo. Na verdade era uma emboscada e dentro do recinto estava alguém contratado para o assassinato. Depois de um certo tempo, Frei Luiz saiu do recinto e disse aos homens que não conseguira mais dar a Estrema Unção ao moribundo, que já se encontrava morto. Tivera um infarto. Os outros homens, como medo de um castigo divino, confessaram a Frei Luiz toda a situação. Conta-se também de um outro homem que espreitou o caminho de Frei Luiz para lhe dar uma paulada e ficou paralisado pelo resto dos dias.

  1. A bênção de Santo Antônio

Um dos costumes piedosos introduzido pelos franciscanos em Petrópolis e que perdura até hoje é a bênção de Santo Antônio às terças-feiras. Frei Luiz recebeu com alegria a missão de ministrar esta bênção. Aconteceu, porém que a bênção dada por Frei Luiz atraía cada vez mais pessoas que se sentiam aliviadas e recobravam suas forças após receberem a imposição das mãos dele. O povo pedia bênção para tudo: para saúde de alma e de corpo, para si mesmo e para entes queridos, perto e distantes. Frei Luiz abençoava individualmente cada fiel, mesmo que isto durasse horas. E a bênção de Frei Luiz começou a se tornar conhecida em toda a cidade de Petrópolis e região. Contam que por vezes ele esquecia até de almoçar, ocupado que estava com as centenas e centenas de pessoas que procuravam sua bênção.

  1. Fatos extraordinários: a presciência

A presciência é um fato até hoje não muito bem explicado, mas existente. Frei Luiz, pela graça de Deus, a teria tido. Já na juventude previra o lugar montanhoso e longínquo onde iria trabalhar. Isto confirmou-se a ele quando pela primeira vez pisou em Petrópolis. Era o lugar que ele tinha visto.

Diversos são os acontecimentos contados nos quais Frei Luiz teve presciência, sobretudo a morte de pessoas amigas. Alguns relatos contados pelo povo:

Durante uma celebração de missa teria tido Frei Luiz a revelação sobre sua própria morte. Nada falou a ninguém, mas os mais próximos notavam que algo estava diferente nele. Um dia, voltando de uma visita, o automóvel onde estava Frei Luiz foi parado por uma senhora que o convidou a ir em sua casa para a entronização de uma imagem do Sagrado Coração no dia 09 de abril. Frei Luiz lhe respondeu: é impossível atender o seu pedido. Continuando a viagem, justificou Frei Luiz sua negativa, dizendo ao motorista e à senhora que o acompanhava: “Neste dia serei enterrado”. Os dois não quiseram acreditar no que ouviram, mas de fato seu enterro aconteceu no dia predito.

  1. O silêncio

Com o passar do tempo e sua saúde cada vez mais debilitada, Frei Luiz procurava momentos onde pudesse ficar a sós, em meditação e silêncio. No burburinho do convento isto lhe era muito difícil, pois era procurado incessantemente pelos necessitados e não negava o atendimento. Foi assim que tendo uma família amiga construído uma casa num sítio em Itaipava, procurou Frei Luiz para que a benzesse. Como frade agradou-se do lugar, a família colocou à sua disposição da casa que chamavam de “Pedras Negras”, pelas rochas negras do entorno. Para ali recolhia-se muitas vezes o frade em meditação e silêncio.

  1. Os últimos passos

A saúde de Frei Luiz mostrava-se sempre mais frágil. Não que ocorrera algum fato especial, mas desde seu beribéri, passando pelo atentado e pela vida de muito trabalho e pouco descanso, suas forças diminuíam. Aliás, desde o atentado de 11 de dezembro de 1931, Frei Luiz não tinha mais a robustez de antes. Já bastante enfermo, foi recolhido ao Sanatório São José, anexo a hospital Santa Teresa. Ali, mesmo debilitado, continuava a atender os outros doentes com sua palavra e bênção.

Suas pernas inchadas faziam com que não conseguisse caminhar corretamente. Arrastava-se de um lado para o outro com muita dificuldade. Por fim, já acamado, continuava a receber as pessoas e com voz fraca, mas lúcida, exortava os fieis a praticar a caridade. A um casal amigo que o visitara no dia 08 de abril, teria ele dito: “Nunca deixei de praticar a caridade, fosse para quem fosse, fosse do que fosse: a caridade da esmola material, a caridade do socorro espiritual, a caridade do pão, a caridade da palavra. Será a minha glória e a minha oferenda a Jesus Menino”.

  1. A passagem

Era a manhã do dia 09 de abril de 1937, uma sexta-feira, dia de céu azul claro, mas um pouco frio, quando se ouviu espalhar por toda a cidade de Petrópolis a notícia: “Frei Luiz morreu”. Falecera na noite anterior, dia 08 de abril, próximo às 23:00hs. Praticamente não houve encontro de duas pessoas na cidade no qual não se comentasse o assunto. Tão conhecido ele se tornara. E o povo começou a acorrer para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Ali, no caixão estava Frei Luiz como que a repousar. Vestido com o hábito franciscano, com as mãos cruzadas, tinha entre os dedos um crucifixo, o cordão e um rosário.

Aos poucos não mais se conseguia entrar na Igreja e o pátio da mesma foi todo tomado. Mesmo para a chegada da família imperial não tinha mais lugar. Não fosse um frade ter percebido a presença de membros da família, querendo aproximar-se e abrir-lhe – por força do hábito franciscano – caminho entre o povo, não teria conseguido despedir-se do frade.

A multidão que ali estava não era composta, porém nem de autoridades ou dignitários, nem de curiosos, mas de centenas e centenas de pessoas que tinham por Frei Luiz uma verdadeira veneração. Era a multidão a quem Frei Luiz devotara a sua vida. A procissão de enterro seguiu lenta por dentro da multidão, da Igreja ao mausoléu dos frades no cemitério municipal. Mesmo sendo a distância curta, o número de pessoas era tão grande que só aos poucos a procissão avançava. Assim, no final do dia 09 abril de 1937, Frei Luiz era sepultado. Seus restos mortais encontram-se até hoje no mausoléu dos frades junto ao cemitério municipal de Petrópolis, quase frente-a-frente com os restos mortais de Frei Ciríaco Hilscher, o mestre que o trouxe ao Brasil e iria falecer 4 anos mais tarde. Simples e quase que escondida, sua urna traz a inscrição “Frater Aloysius Reinke”.

Frei Volney J. Berkenbrock

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