chagas_17092021

“Francisco hoje chora as Chagas de Cristo nas chagas do povo e de toda a Criação”

Frei Augusto Luiz Gabriel (texto) Frei Miguel T. T. Filipe (fotos)

Petrópolis (RJ) – Uma celebração franciscana. Assim foi a Festa das Chegas de São Francisco na Fraternidade do Sagrado Coração de Jesus em Petrópolis (RJ). Começou ainda na véspera com a oração da Liturgia das Horas e culminou com a Celebração Eucarística das 18 horas, deste dia 17 de setembro. A Santa Missa foi presidida pelo guardião e pároco, Frei Jorge Paulo Schiavini, e concelebrada pelo vigário paroquial, Frei José Ariovaldo da Silva que também fez a homilia. O Coral dos Frades do Tempo da Teologia entoaram cantos próprios para o dia, sob a regência do mestre Frei Marcos Antonio Andrade. Como já é de costume, a celebração foi transmitida pelas redes sociais da Paróquia do Sagrado e pela Rádio Imperial.

“Foi em 1224, no Monte Alverne, que São Francisco recebeu os estigmas da Paixão do Senhor. Ele se fez um fiel seguidor de Jesus que ao longo de sua caminhada, tornou-se semelhante a Cristo. Em sua entrega total ao crucificado, Francisco compreendeu a profundidade do amor de Deus por toda criatura, e por isso quis suportar, carregar e amar a todos incondicionalmente, sem medidas ou julgamentos, como Deus ama”, proferiu a ministra Maria Helena Pulcherio, no comentário inicial que deu a tônica da celebração.

Já na homilia (confira abaixo na íntegra), Frei Ariovaldo não poupou nas palavras e fez uma reflexão sintonizada com a realidade que se vive. Segundo ele, São Francisco das Chagas representa as chagas de hoje. “A humanidade toda está chagada. São as chagas das vítimas das guerras e do poderoso mercado de armas e de drogas, são as chagas dos milhares de migrantes forçados. O meio ambiente global está chagado. A sociedade brasileira está chagada. Chagada está a nossa Amazônia. O Pantanal é pura chaga. Nossa dita ‘Pátria amada, Brasil’, é uma viva chaga aberta”, disse.

“São Francisco das Chagas representa todas as chagas da humanidade, produzidas pelos Herodes, pelos fariseus, sacerdotes e Sumos Sacerdotes da atual religião do mercado. Francisco hoje chora as chagas de Cristo nas chagas do povo e de toda a criação”, lamentou.

Para Frei Ariovaldo, Jesus encoraja e fala de esperança. “Os chagados de hoje serão os ressuscitados de amanhã”, revelou.

Após a homilia, a celebração teve continuidade com a liturgia eucarística. Depois da comunhão, o coral entoou o tradicional “Salve Sancte Pater”, canto tradicional da espiritualidade franciscana! (VEJA O VÍDEO).

CONFIRA A HOMILIA NA ÍNTEGRA:

Hoje, 17 de setembro, celebramos a Festa da Impressão das Chagas de Jesus no corpo de São Francisco de Assis, ou seja, São Francisco das Chagas. Festa importante, e até fundamental, para os franciscanos e franciscanas e todos os devotos de São Francisco e, por que não, para todos os cristãos.

Foi há exatamente 797 anos, em 1224, lá no Monte Alverne, na Itália: Lá aconteceu a prodigiosa obra de Deus que imprimiu no corpo de Francisco os sinais da paixão do seu Filho Jesus Cristo, ou seja, as cinco chagas de Jesus. Por quê? Porque Francisco, após sua conversão e sua visão de Jesus Crucificado na igrejinha de São Damião, se encantou e apaixonou profundamente por esse Jesus. Paixão esta que posteriormente aumentou e amadureceu mais e mais. Quando? Depois que descobriu onde estavam as chagas abertas e vivas de Jesus Crucificado. Onde? Nos leprosos e em todos os pobres, abandonados, famintos, sofredores. Aí estavam as chagas de Jesus. Foi aí que ele experimentou ao mesmo tempo dor e alegria. Alegria por poder neles abraçar e beijar as chagas vivas de verdade de Jesus. Pois eles e elas são Jesus agora! Mas também chorou, chorou muito. Escreve Tomás de Celano (primeiro biógrafo de São Francisco), que, a partir de então, Francisco “não consegue mais conter o pranto, ele chora até em voz alta a paixão de Cristo, como que sempre colocada diante de seus olhos. Ele enche de gemidos os caminhos, não admite qualquer consolação, ao recordar-se das chagas de Cristo” (2Cel 11,6-7) nas chagas dos pobres sofredores.

São Francisco das chagas… Hoje, 2021, 797 anos depois, em pleno século XXI, São Francisco das Chagas representa as chagas de hoje, todas as chagas, no corpo de Jesus que se identifica com a mãe Terra, a mãe Natureza, os seres humanos chagados e todos os seres vivos chagados. E todos nós com Francisco podemos também chorar. Nossa mãe Terra está chagada. A humanidade toda está chagada. São as chagas das vítimas das guerras e do poderoso mercado de armas e de drogas, são as chagas dos milhares de migrantes forçados. O meio ambiente global está chagado. A sociedade brasileira está chagada. Chagada está a nossa Amazônia. O Pantanal é pura chaga. Nossa dita “Pátria amada, Brasil”, é uma viva chaga aberta… São as chagas das florestas destruídas; dos milhares de animais – tantos passarinhos! –, tão amados por São Francisco, engolidos em massa pela morte; dos córregos e rios a secar; dos milhares de indígenas e quilombolas agredidos, espoliados, massacrados (quantos assassinados!); do desemprego em massa (milhares de desempregados), da falta de moradia (milhares de sem teto, moradores de rua), das vítimas das drogas etc… São as chagas do mundo, as chagas da nossa sociedade brasileira. Chagas de Jesus, chagas de São Francisco! Sem pensar agora nas chagas do alto preço dos alimentos básicos, do gás de cozinha, da gasolina, de tudo, da falta de vacinas. É muita chaga produzida pela ganância genocida dos Herodes de hoje promotores do agronegócio baseado nas sagradas leis do deus capital; é muita chaga produzida pelos Herodes governantes arrogantes, insensíveis, sem coração, sanguinários, necrófilos, de hoje… São Francisco, numa carta que respeitosamente escreveu a todos os governantes, a eles ele alerta: “Vocês um dia haverão de prestar contas ao Deus criador pelo bem ou pelo mal que fizeram, ou seja, pela saúde ou pelas chagas que vocês produziram sobre este planeta Terra”. São Francisco das Chagas representa todas as chagas da humanidade, produzidas pelos Herodes, pelos fariseus, sacerdotes e Sumos Sacerdotes da atual religião do mercado. Francisco hoje chora as chagas de Cristo nas chagas do povo e de toda a criação.

Mas Jesus nos encoraja na esperança. Ele, tornando-se último sob os impérios dos poderes deste mundo, tornou-se o primeiro pelo poder de Deus que o ressuscitou dos mortos. Por isso que Jesus disse uma vez: “Os que se acham os primeiros neste mundo, um dia serão os últimos. E os últimos neste mundo um dia serão os primeiros”. Por isso, coragem! Jesus prometeu e garantiu pela sua ressurreição: Os chagados de hoje serão os ressuscitados de amanhã! Por isso, com razão, Paulo escreve na Carta aos Gálatas, e isso é Palavra do Senhor: “Quanto a mim, que eu me glorie somente da cruz do Senhor nosso Jesus Cristo. Por ele, o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo… Doravante, que ninguém me moleste, pois eu trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,14.17). Antes, Paulo já dizia: “Com Cristo, eu fui pregado na cruz”. E a mim me chama a atenção o Evangelho de hoje. Vale a pena retomá-lo. Disse Jesus: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo? Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, o Filho do Homem também vai se envergonhar dele quando vier em sua glória” (Lc 9,23-26).

Por isso, meus irmãos, minhas irmãs, coragem! Não caiam no desespero. Chorem, sim. Mas também se alegrem, porque todas as chagas da Mãe Terra, da humanidade inteira e da mãe Natureza um dia haverão de se transformar, pela graça de Deus, em encantadores rubis diante do trono de Deus no admirável mundo novo que há de vir, no Céu. Amém!

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM – 17.09.2021

VEJA MAIS IMAGENS DA CELEBRAÇÃO

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