francisco_031021

Cotovias levaram Francisco para o alto

Francisco, peregrino, andarilho, forasteiro. Sempre passando. De lugar em lugar. Delicadas travessias em seu interior. Tentativa matar o velho homem teimoso em não “passar”, não morrer. Poucos anos de vida. Perto de quarenta. Doente, cansado, quase cego. Perto seu fim. Os médicos não davam mais esperança. O Pobrezinho precisava de um chão para deitar e fazer a derradeira páscoa. Decide-se pela capela da Senhora dos Anjos, a Porciúncula.

Quantas recordações daquele lugar. Depois de Rivo-Torto ele e seus primeiros seguidores foram morar em cabanas em torno da tosca capelinha, quantos encontros fraternos, os capítulos, o começo da aventura da irmã Clara. Um pedacinho do céu na planura de Assis. Ali seria o local de concluir a vida, celebrar os anos vividos. Espaço para esperar a chegada Irmã Morte que viria buscá-lo para conduzi-lo à terra dos vivos. Uma irmã.

Arma-se uma liturgia para morrer. O dançarino de Deus, o louco pelo Evangelho, aquele que tinha sido marcado com os sinais do corpo do Crucificado pede que lhe deitem nu na terra nua. Assim acontecera com seu Amado. Nu nascera o menino do presépio e nu morrera o mártir do Calvário. Francisco configurado a Cristo até no momento da passagem. Salmos recitados com júbilo e dor.

Um ser humano que morria. Não um sobre humano. Dando-se conta da proximidade do final pede que Fra Jacoba, sua amiga de Roma, venha dele se despedir. Que não esqueça de trazer aquele doce de amêndoas que ele tanto apreciava. O humano à flor da pele na hora de fechar as cortinas do palco da vida. A amiga chega. Francisco mal e mal deve ter tocado o doce. No meio dos salmos um gesto humano. Um santo que pouco antes de morrer tem vontade de um doce… Humano até o fim.

Francisco tenta olhar para os irmãos. Pede que cantem o Cântico do Irmão Sol. Felix Timmermans assim descreve a cena:

“Seguiu-se um profundo silêncio. Seu braço cedeu e ele se deitou, e um sorriso pálido aflorou em seus lábios cor de púrpura. Seus olhos avermelhados nas órbitas de um azul escuro foram se fechando, vagarosamente e aquele semblante moreno e macilento tornou-se completamente branco. A mão despendeu-se da chaga do coração que apareceu como uma linda e fresca rosa vermelha. Os irmãos permaneceram de joelhos soluçando e rezando… De repente lá fora no telhado, milhares de cotovias como se tivessem combinado, todas ao mesmo tempo, se elevaram triunfalmente para o alto.”

Tardinha inesquecível. No comecinho da noite de 3 de outubro de 1226 era uma lenda que terminava seus dias, um homem como nunca existira antes. Voou para as alturas e continua entre nós. Quem poderá esquecer-se de Francisco de Assis?

 “De repente, lá fora, milhares de cotovias voaram para o alto abrindo o caminho para o luminoso Francisco de Assis.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Notícias Relacionadas

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print