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Ano de São José

Frei Almir Riberio Guimarães

Este ano de 2021 é consagrado a São José. Esta página de Alain Corbin nos coloca diante do mistério do esposo de Maria e guardião da Sagrada Família. Junta José e Nazaré para nos falar do silêncio.

O silêncio de um homem, José, e de um lugar, Nazaré, estão estreitamente ligados: são dois silêncios absolutos. O pai adotivo de Jesus permanece mudo nas páginas das Escrituras. É o patriarca do silêncio. Inútil querer procurar uma única palavra dele nos quatro evangelhos. Quando Jesus demora mais tempo em meio aos doutores de Jerusalém, Maria e José ficam preocupados com sua ausência. É a mãe e não o pai que lhe dirige uma advertência. Em Belém, José se cala. Quando ouve em sonhos a palavra do anjo que lhe dá ordem de partir para o Egito (Mt 2,13), guarda total silêncio, e obedece sem pronunciar uma palavra sequer. A morte de José em Nazaré é silenciosa. Em suma, José respondeu por meio do silêncio a tudo o que lhe dizia respeito no evangelho de Mateus. Seu silêncio é o coração que escuta, absoluta interioridade. Ao longo de toda a sua vida contemplou Maria e José e seu silêncio significa superação da palavra.

José ilustra aquilo que Bossuet, no duplo panegírico que lhe consagrou, qualifica de severidade e humildade do silêncio. Para Bossuet, Nazaré é ao mesmo tempo um lugar e um tempo, o grande tempo do silêncio. Nunca, em lugar algum, pesaram ao longo do tempo, nem com tanta força, as emoções silenciosas.

Sem dúvida, Charles de Foucauld foi quem mais longamente refletiu sobre o silêncio de Nazaré. Desejou colocar Nazaré no centro de sua reflexão espiritual. Ao longo de seus escritos não cessou de desejar fazer de sua vida uma “vida de Nazaré”, quer dizer de humildade, de pobreza, de trabalho, de obediência, de caridade, de recolhimento, de contemplação. Tenta explicar, para viver melhor, silêncio desta vida obscura. Maria e José, conscientes de deterem um admirável tesouro, calam-se a fim de guarda-lo na solidão e no silêncio de uma vida escondida. Como eles, ninguém praticou o silêncio.

Charles de Foucauld ouve um dia Jesus lhe dizer evocando parte de sua vida: “Não cesso de vos instruir, não por palavras, mas por Meu silêncio”. De Foucauld acredita que quando Jesus estava ainda no seio de sua mãe, o silêncio de adoração atingiu seu mais alto pico. Charles de Foucauld acreditava que Maria e José nunca puderam usufruir de Jesus num silêncio tão perfeito. Na proximidade do Natal Charles de Foucauld medita sobre a vida de Maria e José, partilhada entre a adoração imóvel e silenciosa, as carícias, os cuidados necessários, devotados e ternos. Quando a noite caía, De Foucauld imaginava que Maria e José voltavam silenciosos e felizes sentar-se diante do berço de Jesus.


Alain Corbin, Histoire du silence, Albin Michel, Paris, p. 101-103

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