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A longa procissão de Ramos de Jesus na Semana Santa e em nossas vidas (Lc 19,28-40)

Frei Jacir de Freitas Faria [1]

A Semana Santa tem seu início com o Domingo de Ramos! Dia de esperança, apesar das dores que a vida nos reserva. O texto sobre o qual vamos refletir é Lc 19,28-40. Trata-se da narrativa lucana da entrada de Jesus em Jerusalém, sendo aclamado rei. Depois desse acontecimento, uma interminável procissão tem o seu percurso marcado por encontros e desencontros até o momento da trágica morte na cruz.

Tudo começa com a entrada de Jesus em Jerusalém! Tudo foi muito triunfal. Um jumentinho levando um homem com características de rei. Um povo que gritava: “Bendito rei, que vem em nome do Senhor” e jogava ramos de palmeiras e roupas para ele passar. Era a trajetória de glória para Jesus. Lucas não diz que o povo gritava “Hosana ao Filho de Davi”, mas que Ele era um rei. Nisso está uma afronta ao imperador de Roma, o único que pode ser saudado com um Ave César e ser chamado de rei. A memória desse fato entrou na celebração Eucarística, quando entoamos o “O Senhor é Santo”, antes da consagração.

A palmeira era o símbolo da Lei, da Torá dos judeus. Jesus está em conformidade com os ensinamentos dos nossos mestres da Lei, pensava o povo. Por isso, a Torá-Palmeira recebe a Torá-Jesus. As roupas simbolizavam o acolhimento de Jesus no meio deles, na casa. Tudo ia tão bem! Parecia que Jesus teria um final feliz.

No entanto, não foi o que aconteceu. Vários outros encontros aconteceriam naquela semana. Jesus, até o momento final de sua vida na cruz, teve vários encontros. Ele encontrou-se com uma mulher que derramou perfume caro no seu corpo; com um traidor, Judas, que se passava por apóstolo e um apóstolo, Pedro, que o traiu antes do canto do galo; com um Simão Cirineu que o ajudou a carregar a pesada cruz; com os seus apóstolos para celebrar uma ceia festiva; com a dor pressentida de morte, no Getsêmani; com o poderoso Pilatos que o interroga e o envia para ser crucificado; com o povo que, diferentemente do dia da entrada em Jerusalém, pede a sua condenação; com a cruz da morte; e, por fim, com a sua mãe, sua tia Maria, sua amada Madalena, sua amiga Salomé e o seu amigo José de Arimateia que lhe oferece, com o seu dinheiro, um enterro digno de rei.

Nós também, durante a nossa vida, na procissão de esperança e paixão, nos encontramos no Getsêmani de nossas dores de morte, e também com pessoas que nos oferecem flores de afeto, de ternura, de carinho, assim como as da mulher de Betânia. Quem nunca teve um Cirineu que o ajudou a carregar a cruz? Quem também nunca sofreu a dor de traição de um amigo, de um familiar, de um político? São tantos os Pilatos e Judas que encontramos em nossas vidas. O melhor de tudo, o que fica é que nunca esqueceremos os encontros, os momentos em que nos reunimos para celebrar a vida! E é isso o que nos ajuda a amenizar a dor que nos espera na primeira esquina ou, até mesmo, no próprio banquete.

A vida é assim, cheia de encontros bons e ruins, coisas boas e ruins. Ninguém pode rejeitar o sofrimento. Ele chega sem pedir licença. O grande desafio é como lidamos com o sofrimento pessoal, seja por uma perda ou outra circunstância de vida. Primeiro, ele se instala, e ficamos inertes, passivos diante dela. Num segundo momento, precisamos falar sobre ele. É o momento da queixa. Terceiro, vem tomada de consciência. Cessa a reclamação. É o momento de viver e conviver com a dor a partir do amor, seguir em frente a procissão da vida. A dor se transforma em amor. Já a dor social, causada por sistemas econômicos e políticos injustos tem outros caminhos para ser combatida.

Falando da dor da morte, uma certeza eu carrego comigo, que “nesta longa estrada da vida”, música eternizada na voz de Milionário e Zé Rico, “vou correndo e não posso parar”. O meu desejo é o de ser campeão, “mas há momentos em que o tempo cerca a minha, a nossa estrada, a vista escure e o fim da vida, da estrada, chega.” Parece que não há mais nada para fazer. Será que foi assim que aconteceu com Jesus? Uma cruz o esperava em Jerusalém! Parece que tudo tinha chegado ao fim. Nesse encontro final de Jesus com a cruz, três certezas: 1) As pessoas que o amou em vida estavam ali, aos pés da sua cruz de morte planejada; 2) Um centurião romano proclama que Ele, Jesus, verdadeiramente, era o filho de Deus (Mc 15,39); 3) Na dor da morte, o Deus humanado grita: “Meu Deus, meu Pai, para que me abandonastes?”. Pai, para que me abandonastes? Jesus não olha os encontros passados, mas o que viria na vida Dele e na nossa, a partir de sua morte redentora.

A última cena é terrível. Tudo parece terminado. Não há mais nada para fazer que seguir o caminho de volta para Jerusalém, retomar a procissão da vida e esperar a morte. Ledo engano! É aí que renasce a esperança. Em pouco tempo, três dias, Jesus ressuscitaria para devolver a esperança aos seus seguidores, apesar de tudo e de todos. Deus, o Pai, não o abandonou. Ele está conosco. Ele se permitiu viver a dor humana para nos ensinar que, apesar da dureza da vida, perder a esperança, jamais! Jesus entendeu que no final de sua trajetória na terra, Ele seria acolhido pelo Pai. Uma nova história começaria para Ele e para nós. Que maior mistério de fé e esperança do que isso? Fim. Não! Recomeço! Como disse São Francisco de Assis, nos últimos momentos de sua vida, depois do encontro com o leproso, quando o beijou: “Irmãos, vamos recomeçar, pois pouco ou quase nada fizemos. Boa Semana Santa a todas e todos!


[1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze                       

Imagem: Afresco de Pietro Lorenzetti, na Basílica São Francisco (Wikipedia, domínio público)

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